Opinião

OPINIÃO: PT foi criado para depurar a política mas detonou o sistema partidário brasileiro

Ao comprar apoio político, o PT praticamente dissolveu os principais partidos do país. Não há alternativa: a reconstrução passa pelo PT, pelo PSDB e pelo PMDB. Mas é preciso pensar no país e não em eleições

Na semana passada, a notícia de mais impacto foi a prisão de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. A direção nacional do PT aportou R$ 31,6 milhões na campanha que garantiu a reeleição da presidente Dilma Rousseff, em 2014. O caixa do partido era controlado por Vaccari Neto. Algumas das 21 empresas que fizeram doação são investigadas na Operação Lava Jato.

Os números oficiais podem, porém, esconder outros dados ainda mais robustos. O ex-gerente de Serviços da Petrobrás Pedro Barusco, que fez delação premiada, contou que Vaccari Neto recebeu pelo menos 200 milhões de dólares. O dinheiro seria para o PT. O Ministério Público Federal sublinha que o ex-tesoureiro esteve em reuniões com o ex-gerente de Serviços da Petrobrás Renato Duque, apontado como “homem de José Dirceu e do PT”, para discutir o pagamento de propinas. Estas eram transformadas em doações legais para o partido. Segundo o MPF, em 18 meses, as doações alcançaram o valor de R$ 4,2 milhões.

O procurador do MPF Deltan Dallagnol sustenta que “Vaccari ti­nha consciência de que os pagamentos eram feitos a título de propina”.

O PT não tem como desvencilhar-se com facilidade de Vaccari Neto, porque, se o ex-tesoureiro aderir à delação premiada — acredita-se que, como Delúbio Soares e José Dirceu, homens de partido, vai permanecer calado, pois seria adepto de algo parecido com a omertà italiana —, a bomba pode estourar mais para o “alto”. De uma maneira um tanto quanto pueril, aliados da presidente Dilma Rousseff sustentam que Edinho Silva, hoje ministro da Secretaria de Comunicação Social, foi o responsável direto pela arrecadação de sua campanha em 2014. É um argumento para advogados trabalharem, mas as informações, pelo menos as divulgadas até agora, sugerem que o homem que buscava e levava dinheiro para a campanha era mesmo Vaccari Neto. O que se deve fa­zer, a partir de agora, é investigar suas conexões com Edinho Silva. Ressal­te-se que, até o momento, o nome do ministro da Comunicação Social não foi citado de modo desabonador. Mas a própria equipe de Dilma Rousseff está fornecendo pistas.

Apesar da onipresença do caso Vaccari Neto na mídia, o PT e o governo da presidente Dilma Rousseff não pretende discuti-lo em tempo integral. O que não se quer é arrastar o governo para mais uma crise. Na verdade, PT e governo estão no olho do furacão. Petistas graduados, como o ex-presidente Lula da Silva, afirmam que o ex-tesoureiro não vai ser abandonado — seria a senha para ele não abrir a suposta caixa preta do partido com os empreiteiros e outros empresários. Mas acrescentam que, como o momento é de “virar a página”, o caso deve ficar a cargo do advogado de Vaccari Neto — não do PT e do governo Dilma Rousseff.


Petistas mais distanciados realçam que Vaccari Neto deveria ter deixado a tesouraria do PT há mais tempo e frisam que, além de envolver o partido no propinoduto da Petrobrás-Sete Brasil, parte de sua família, como mulher, filha e cunhada, pode ter se beneficiado dos recursos obtidos com o esquema corrupto. Há fortes indícios de enriquecimento pessoal às custas do partido e de empresas. A possibilidade de o ex-te­sou­reiro ser condenado adiante, dada à fartura das acusações, é imensa. O PT sobreviveu ao julgamento, condenação e prisão de seu ex-tesoureiro Delúbio Soares. Resta saber o que será do partido daqui pra frente. É provável que, ao longo dos próximos anos, se desintegrará — co­meçando com políticos históricos, como Marta Suplicy e Paulo Paim, deixando suas hostes.

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