Pacientes com câncer de mama compartilham
experiências marcadas por desafios, apoio familiar e a vontade de continuar
realizando seus sonhos
“Eu não vim nessa vida para perder.” A
frase da geóloga e servidora pública Edileuza de Melo Nogueira, de 64 anos,
traduz a determinação de quatro mulheres que enfrentam o câncer de mama em
diferentes momentos da vida. Entre diagnósticos inesperados, mudanças na rotina
e incertezas sobre o futuro, elas descobriram que seguir em frente também é uma
forma de superação.
As quatro são pacientes do Hospital
Anchieta e compartilham experiências marcadas pelo medo, pela força dos
vínculos familiares e pela vontade de continuar fazendo planos. Cada trajetória
revela uma maneira particular de lidar com a doença, sem permitir que ela ocupe
todos os espaços da vida.
Em dezembro de 2019, Edileuza percebeu um
nódulo na mama esquerda fazendo o autoexame. Após a confirmação do câncer,
iniciou a quimioterapia e passou por uma mastectomia. Durante o tratamento,
ainda enfrentou a Covid-19, que provocou mudanças no cronograma previsto. Em
2022, recebeu uma nova notícia difícil e precisou retomar os cuidados oncológicos.
Mesmo diante das dificuldades, procurou
preservar a independência e a rotina profissional. Costuma levar o computador
para as sessões de quimioterapia e começou a escrever um livro sobre sua
trajetória. Mãe de uma jovem de 22 anos, encontrou na filha uma das maiores
razões para continuar acreditando nos próprios sonhos.
A artesã Marcela Mendonça Reis, de 46
anos, também percebeu uma alteração ao tocar a mama, em outubro de 2025. Os
exames revelaram um quadro mais delicado: câncer de mama com metástase no
fígado. A quimioterapia começou em julho deste ano, trazendo mudanças que
ultrapassaram os efeitos físicos do tratamento.
Acostumada a realizar várias tarefas ao
mesmo tempo, precisou diminuir o ritmo e reorganizar o cotidiano. O marido
esteve ao seu lado em todas as sessões, enquanto a fé e a psicoterapia ajudaram
a enfrentar os momentos mais difíceis. A experiência também trouxe uma nova
maneira de enxergar o tempo e as próprias prioridades.
“Aprendi que não controlo tudo, só minhas
atitudes”, conta Marcela, que passou a valorizar ainda mais os momentos de
tranquilidade e a convivência com pessoas que lhe fazem bem.
Para Leonilde Sousa, de 48 anos, o alerta
surgiu em fevereiro, quando percebeu um nódulo na mama direita. Mesmo
acostumada a realizar acompanhamento médico anual, ficou preocupada ao notar
que a alteração persistia. A mamografia e o ultrassom iniciais não
identificaram o problema, mas ela decidiu continuar investigando.
Uma ressonância apontou a necessidade de
biópsia, que confirmou um tumor triplo negativo. A servidora pública começou a
quimioterapia em junho e também passou a receber imunoterapia. Com a redução
significativa da lesão, segue para as próximas etapas, entre elas a cirurgia.
O diagnóstico trouxe medo e insegurança,
mas o apoio do marido, da família e dos amigos ajudou a atravessar esse
período. Hoje, sua principal mensagem é que as mulheres devem conhecer o
próprio corpo e procurar avaliação médica diante de qualquer mudança, mesmo
quando os primeiros exames não mostram alterações.
A microempreendedora Susan Neville, de 51
anos, também identificou um nódulo na mama direita. Foi em fevereiro, ao tocar
a região. Depois de consultas e exames, recebeu a confirmação do câncer em maio
e iniciou o tratamento apenas 13 dias após o resultado da biópsia.
Vieram as sessões de quimioterapia, os
enjoos e os dias de cansaço intenso. Em alguns momentos, precisou permanecer
deitada por três ou quatro dias. Mas encontrou no marido, nos filhos, na mãe,
nas tias e nos amigos uma rede de apoio que esteve presente durante toda a
jornada.
Na última aplicação de quimioterapia,
tantos familiares e pessoas queridas fizeram questão de acompanhá-la, que quase
não havia espaço para todos. Com uma mastectomia marcada para 4 de novembro e
radioterapia prevista posteriormente, ela continua olhando para o futuro. Entre
os planos, está uma viagem para aproveitar o Carnaval de Salvador.
“Existe vida além do câncer”, resume, ao
mostrar que o diagnóstico não interrompeu sua vontade de sonhar.
O cuidado vai além da doença
Apesar de compartilharem experiências
semelhantes, as quatro mulheres vivem situações clínicas diferentes. Algumas
seguem em tratamento, outras aguardam procedimentos e todas enfrentam desafios
que exigem adaptações físicas e emocionais.
Para o coordenador da oncologia do
Hospital Anchieta Taguatinga e médico do Anchieta Unique, Caio Neves, cada
trajetória precisa ser compreendida de maneira individual, considerando não
apenas as características da doença, mas também as necessidades de quem recebe
o diagnóstico.
“Cada mulher enfrenta esse momento de uma
maneira diferente. O tratamento é fundamental, mas precisamos olhar também para
os medos, os vínculos familiares e os projetos de vida. Cuidar de alguém com
câncer significa enxergar a pessoa para além da doença”, destaca o oncologista.
O especialista também ressalta que
identificar alterações nas mamas e buscar avaliação médica são atitudes
importantes, assim como manter o acompanhamento e os exames recomendados para
cada faixa etária e condição de risco.
Entre sessões de quimioterapia, consultas
e decisões difíceis, essas histórias mostram que a coragem nem sempre significa
ausência de medo. Às vezes, ela está em aceitar ajuda, mudar os planos,
continuar trabalhando ou simplesmente encontrar forças para enfrentar mais um
dia.
Para essas quatro mulheres, a vida ganhou
novos desafios, mas não perdeu o espaço reservado aos sonhos.
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